EMRC por terras de Valência

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EMRC por terras de Valência

De Vizela a Valência: Quatro dias que não cabem numa simples bagagem.
“Ab urbe Artium et Scientiarum Civitatis Dei in Valentia” – 15 a 19 de abril · Valência · Gandia · Madrid · Infias

REPORTAGEM DA ATIVIDADE DE EMRC > Ensino Secundário


Aproximadamente, às 22h00 de uma quarta-feira, dia 15 de abril de 2026, quando a maioria das pessoas com quem convivo diariamente na escola, já estava a dormir, eu estava ali, em frente à escola, duas mochilas às costas, olheiras que viriam a ser proeminentes durante a viagem, e um entusiasmo difícil de esconder, tudo isto à espera de entrar no autocarro que nos levaria a Espanha.
O tema era grandioso: “Ab urbe Artium et Scientiarum Civitatis Dei in Valentia” — Da cidade das Artes e das Ciências à de Deus em Valência. Palavras em latim que, honestamente, soavam ainda mais entusiasmantes àquela hora da noite. Com o autocarro a tomar a estrada e a cidade de Vizela a desaparecer no espelho retrovisor, só havia uma coisa a fazer: tentar dormir. Spoiler: ninguém conseguiu a sério, entre conversas sussurradas e posições perfeitas difíceis de encontrar quando se está num autocarro (ainda por cima cheio de adolescentes do 10° até ao 12.º ano)

Dia 16/04/26

Chegámos a Valência com os olhos a arder e o cabelo que não vou descrever, mesmo após vários retoques de, mais ou menos, 30 meninas na respetiva casa de banho de uma estação de serviço qualquer. Mas assim que saímos do autocarro e respirámos aquele ar quente, apercebemos-nos que a nossa rede móvel tinha mudado, e com isso, caiu-nos a ficha de que realmente estávamos em terras de nuestros hermanos: Valencia. A cidade apareceu à nossa frente como uma daquelas coisas que nunca esperamos que sejam tão bonitas ao vivo.
O centro histórico parecia uma mistura de história, misturada com um bocadinho de cheiro a esgoto, sejamos sinceros. No entanto, cada rua tinha uma história para contar, ou pelo menos era o que o professor dizia enquanto nós tentávamos prestar atenção a tudo e, a cima de tudo, não tropeçar nos paralelepípedos ao mesmo tempo, principalmente enquanto subíamos as escadas enormes da Torre de Serranos.
Lá em cima, Valência era uma tapeçaria de laranjeiras, muitas delas em ímans de recordação, cúpulas e oceano ao longe, muito ao longe. Valeu cada degrau, e foram muitos.

A segunda paragem foi o Mercado Central, um mercado que é, para além de um mercado onde se fazem as compras semanais e tradicionais, uma obra de arte. A azulejaria, as cúpulas, o movimento de quem compra e vende como se o tempo não existisse. Cheiros de especiarias, frutas que não sabíamos nomear, vozes em espanhol por todo o lado. Ficámos ali mais do que o planeado, o que, convenhamos, é o melhor sinal possível.
Agora, descreverei algo indescritível com palavras: o passeio pela Marina de Valência, o ar a cheirar a mar, os barcos ancorados, aquela sensação de que Valência é uma cidade multimodal a todos os sentidos, mas acima de tudo uma cidade marítima, que não esquece a sua história. Vimos o Porto de Valência, vimos o mar tão calminho que dava vontade de nadar, junto aos barcos.
À tarde, seguimos para Gandia, onde nos esperava o Hotel Gandia Playa e, finalmente, uma cama a sério. A vista da janela fora a melhor coisa que vira antes de adormecer, no maior sono profundo da vida. Bom sinal.


Dia 17/04/26

O segundo dia começou com som de secadores de cabelo, como já tinha referido. Éramos bastantes meninas. Depois, de volta a Valência, o que toda a gente esperava: a Cidade das Artes e das Ciências.
Nada nos preparou para aquilo. O complexo aparece como uma nave especial pousada na cidade, curvas brancas, reflexos na água, uma arquitectura que parece ter chegado do futuro. O Museu das Ciências foi um daqueles sítios onde se aprende a brincar, onde as exposições não ficam atrás de vidro mas convidam a tocar, experimentar, questionar. Ficámos ali muito mais tempo do que o previsto e isso, por si só, diz tudo.
O Oceanográfico, foi, de todos os locais, o meu preferido e foi o fecho perfeito do dia. Tubarões que deslizavam sobre as nossas cabeças, raias que pareciam voar na água, medusas iluminadas como lanterninhas do fundo do mar. Ficámos coladas ao vidro como crianças e não me arrependo nada. O Oceanográfico fez-nos lembrar que o mundo debaixo de água é maior, mais silencioso e muito mais inteligente do que imaginávamos. Todos ficamos fascinados pela vida marinha, pelas simples coisas que ela nos apresentavam, queria ter filmado as nossas caras aquando uma foca estava a nadar de barriga para cima.. estava apenas a ser uma foca, e nós adoramos. Não há palavras para descrever a espetacularidade do espetáculo dos golfinhos, fora tal e qual como o nome indicara: um verdadeiro espetáculo. Nunca tive a noção do quanto aquelas criaturas seriam tão inteligentes e tão comunicativas com os humanos.

Dia 18/04/26

A manhã deste dia começara da melhor, mas exaustante, maneira possível. Com a Catedral de Valência, talvez o momento mais marcante, tal como disse o professor Filipe, embora tenhamos tantas igrejas em Portugal e tenhamos visto tantas na nossa vida, o fascínio com que olhávamos e ouvíamos (através de auscultadores) a história daquele lugar, era, literalmente, de boca aberta, aquela estrutura que mistura estilos diferentes ao longo dos séculos, como se cada época tivesse acrescentado o seu capítulo.
E depois veio o Miguelete. A torre. Os 207 degraus. Ninguém nos tinha avisado que seriam tanto assim. O que me deixou logo desanimada, e claro, tive que parar a meio, estava tão cansada e olhar para cima e ver que tinha que andar ainda 150 degraus…Posteriormente ao meu descanso, subimos em fila indiana, em silêncio cúmplice, respirando fundo. Mas quando chegámos ao topo e Valência se abriu à nossa frente, os telhados, as cúpulas azuis, o horizonte que prometia o Mediterrâneo, ninguém se queixou mais (ok, eu talvez me tenha queixado um pouco, não gosto muito de alturas..)

Dia 19/04/26

O último dia trouxe Madrid e o Parque Warner porque uma viagem de estudo também precisa do seu momento de adrenalina pura, sendo este o motivo pelo qual eu vim à viagem. Embora tenha gostado bastante do oceanario, deixei o meu coração no parque (literalmente, porque algumas coisas davam muito medo, que até o meu coração saltava da boca). As montanhas-russas foram devidamente aproveitadas, os gritos foram altos, e houve quem saísse da Gotham City com uma expressão que ficará para a história (incluindo eu).
Entre as filas das atrações e os granizados com a cara de um personagem ao sol de Madrid, havia uma consciência partilhada de que aquilo estava a acabar. O autocarro esperava. Vizela esperava. A escola esperava. Mas, por aquelas horas, ainda éramos exploradores numa cidade que não era a nossa.

Voltei diferente. Não de uma forma dramática não aprendi espanhol fluente, não tive uma revelação mística ao subir o Miguelete. Mas há qualidades que só aparecem quando saímos do sítio onde nos sentimos seguros: uma atenção diferente ao mundo, uma vontade de olhar mais devagar, de perceber o que está por trás do que vemos. Ganhei mais coragem, ultrapassei desafios que podem parecer banais para alguns, mas para mim, foram uma verdadeira conquista. Embora cansada, de cabeça erguida subi o miguelete, embora com medo, fui a todas as atrações do parque, até aquelas que me faziam saltar do banco..
A Cidade das Artes e das Ciências ficou-me na cabeça como a prova de que a beleza e o conhecimento não são opostos podem partilhar o mesmo espaço, o mesmo edifício, a mesma cidade. Talvez seja isso o que o tema desta viagem queria dizer, afinal: que Valência é um lugar onde a arte e a ciência coexistem com uma naturalidade que nos faz querer aprender mais.
E o Miguelete? O Miguelete ficou-me nos pés (através das bolhas)… e na memória, para sempre.
Escrito com as memórias ainda quentinhas!

Inês Lopes Abreu – 11B